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A Igreja e o Tempo*
Por Kleber de Souza Mateus**
A morte de João Paulo II evidenciou, devido as vorazes articulações midiáticas, um problema que há tempos aflige o seio da Santa Madre Igreja: a intensa debandada de fiéis para outras religiões ou seitas e até mesmo para o ateísmo ou outros “ísmos” comuníssimos.
Esse processo, que se adensou no último século, tem suas bases mais recentes em algumas tendências de pensamento que se delinearam, inicialmente, com o advento do Renascimento – período onde as artes e as ciências começaram a se desvencilhar da crença e assumiram um tom mais materialista – culminando no Humanismo e Iluminismo. Esses períodos, além de focarem ou delinearem os estudos científicos notoriamente adversos a qualquer influência religiosa, também mudaram o centro do mundo de Deus para o homem.
Nesse sentido, tudo o que é feito pelo homem visa, teoricamente, satisfazer a si mesmo ou aos seus pares, mas na prática, como bem vemos, ocorre justamente o contrário. A modernidade na verdade tornou o homem, ainda que um tanto mais racionalista, extremamente individualista (e não à toa a palavra “indivíduo” tem o mesmo tronco de “individual”), ou seja, da hierarquia reinante outrora, cada pessoa deixa de ter responsabilidade com seu grupo e passa a ser responsável simplesmente por si próprio.
Atitudes desse gênero fazem ascender no homem cada vez mais o instinto competitivo e, ao invés de enxergar no seu próximo um irmão a quem se deve cuidar como parte do todo que lhe cerca, passa a ver um êmulo em potencial.
O desapego à hierarquia, à tradição e, mais tetricamente, à Deus, faz com que o homem se entenda como auto-suficiente e, além disso, senhor de si e de seus caminhos. Relativiza, então, tudo o que o cerca segundo o seu ponto de vista e assim entende que é livre e não precisa de âncoras que lhe balizem a vivência.
O catolicismo, que predominou como religião mais praticada no Ocidente, sente os terríveis abalos dessas tendências de pensamento onde Jesus é secundário, e o relativismo que os “fieis” atribuem a suas próprias vidas, somado ao crescimento cada vez maior das influência de religiões Orientais – como o budismo e o hinduísmo – e do protestantismo faz com que a Santa Igreja perca adeptos.
Argumentos de que a Igreja deveria se adaptar as mudanças do tempo e do pensamento para ganhar mais praticantes passaram a ser constantes. Mas devemos nos perguntar: “é a igreja que tem que se adaptar ao tempo ou o tempo que deve se adaptar à Igreja?”.
Ora, tendo em vista o senso-comum vigente, a Igreja deve ser encarada como qualquer instituição capitalista neo-liberal, ou seja, deve se moldar de acordo com os ditames regulares para não perder seus fiéis.
Mas a questão é mais complexa, porque a Igreja Católica não é um organismo mercadológico, mas sim a portadora das tradições que nos legou Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
[CONTINUAÇÃO ABAIXO]
Escrito por Redator às 15h55
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