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Legados Incontestáveis: Menino de Engenho
Por Kleber Mateus
Quis José Lins do Rego, em tempos em que O Quinze (Rachel de Queiroz, 1930) deslanchava nos cantos da literatura corrente entre as décadas de 1930 e 1940, impregnar novamente na história literária tupiniquim o odor suave e majestoso da humanidade latente, com seu Menino de engenho (1932).
Não deixou o autor de marcar o romance com uma outra temática ascendente: a política e as relações no seu sentido regionalista nordestino; basicamente ali representados pelo patriarcalismo e coronelismo. Tal, se visto como gancho para o engendramento da obra como um todo, explica a simplicidade das relações que nela se dão, de modo que para ambas as partes – favorecidos e desfavorecidos – tudo acontece de forma muito natural, não havendo, de modo algum, contestação do significado e veracidade do legado.
Em meio a tanto, o presente trabalho pretende explanar de forma periférica o que se convenciona classificar como foco do livro – a expressão biográfica duma criança órfã, que passa sua infância num engenho – e enfatizar tanto quanto mais a função humana e as relações sociais ali expressas.
Passado num Pernambuco verificado no fim do Século de XIX e início do XX, não pouco, então, tradicional, a obra se inicia esclarecendo uma condição social privilegiada do protagonista, filho de pais de bom nome e propriedades.
Mas o valor das riquezas logo é anulado por uma tragédia: seu pai matou a esposa. De saída dá-se logo a orfandade, amainada imediatamente pela proposta de bons ares do engenho do avô, pai de sua falecida mãe.
A título de figuração, vale lembrar que as benéfices da boa condição familiar logo se mostram novamente, quando seu pai, por ser senhor de títulos, desmerece a cadeia e vai findar sua vida numa clínica de loucos – de “doidos”, como bem quer o autor. Por mais que se instale a tristeza no coração do menino em decorrência do aprisionamento do genitor, há de se convir que uma clínica não é dos castigos mais rígidos para um assassino.
José Paulino, o avô, por sua vez, demonstra ainda o peso do tradicionalismo, e paga as despesas do algoz da filha... não mereceria, sendo seu genro, uma morte das mais sórdidas, independente do que haja feito em vida.
No engenho o menino encontrou um cenário cheio de bucolismo, onde até a labutaria confundia-se com o ambiente natural, fosse pela rusticidade da lida, fosse pelo conformismo dos trabalhadores, que em pouco se diferenciavam dos animais. Aliás, dramático demais seria enumerar como “pouco” a diferença, isso porque todos ali se dotavam de uma expressão humana das mais densas, e o autor evidenciou isso – e assim, também, sua genialidade – quando do uso dos vultos culturais da região e da língua “arcaica” do local. Esta, cheia dos gracejos e algo de sentimento, de forma que abate no leitor uma melancolia, tão muito contrastada pelo desejo esbaforido de mais se embrenhar nos prazeres tão bem escritos do regionalismo.
Como bem frisaram uns críticos, o autor não pareceu criar algo, mas sim retratar uma experiência de vida sincera.
Mas a paisagem, quando não expressada no trabalho diário e seus atores, se mostrava na convivência simples do dia-dia. Crianças a brincar nos campos, nadar nos rios e trepar em árvores, senhoras bordando, servas cozinhando... conversando e deixando de lado suas classes sociais ou condições de vida.
[CONTINUAÇÃO ABAIXO]
Escrito por Redator às 13h35
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Não à toa, José Lins dedicou a obra, entre outros, a Gilberto Freyre, maior defensor da teoria do sincretismo entre as raças formadoras da nação brasileira.
E assim, o autor amalgamou a vida do menino, de forma indissociável, entre a Casa-grande e a Senzala, porque no engenho, ricos e pobres se davam de forma mui simplória. Verdade é que essa simplicidade tendia a verificar favorecimento aos da casa-grande, e a esse respeito, Juca, o tio maravilhoso, era a perfeita representação dessa tendenciosidade: tinha lá ele suas relações com as negras da fazenda, tinha filhos com elas, mas não assumia a paternidade de nenhum. Quebrava um código de honra, desse jeito – pecado fatal – de modo que em contra partida, um “peão” sentiu na pele os castigos por deflorar e não casar com a mulata com quem deitou (ou ao menos foi acusado de), até que se descobriu ser Juca o malfeitor. Esse nada sofreu além de represarias suavíssimas de seu pai. Incontestável legado.
E as negras em pouco tinham mesmo direito à honra. Resguardava-se essa – a honra – quase de todo aos brancos da casa-grande. Filhas da extinta escravidão, as moradoras da senzala davam-se ao trabalho pesado ou ao cumprimento das funções domésticas dos senhores. Quando muito serviam de objeto para saciar a sede carnal vulcanizada na tez dos peões ou dos brancos senhores. Tinham filhos de muitos, e estes filhos elas criavam sós e lhes deixavam o mesmo legado incontestável, o da serviência.
As brancas, nada tinham além de suas funções de mulher da época, mas assim gozavam de um ar de majestade sobre as mucamas e os empregados, que lhes prestavam respeito e prestigiavam. Nada além, porém, do que pudesse, de algum modo, romper com o ciclo de tradicionalidade vigente. Eram herdeiras do machismo.
Cresceu, o menino, admirando o sensato, imponente, respeitado – e o que mais de adjetivos couber a um típico senhor de engenho – José Paulino, seu avô e ídolo.
O velho José Paulino além de tudo era prefeito, respeitado não somente pela sua severidade, mas também por sua bondade. Fazia favores, protegia pessoas, pagava em dias... mas queria algo em troca. Pedia algo em troca.
Pedia respeito, trabalho, fidelidade etc etc...
Era o coronel brasileiro em todos os aspectos. Cheio de dívidas políticas, e fiador de tais também. Lá também com seus rivais, mas nunca em confronto direto.
Sempre justo, sempre incólume, sempre coronel.
E o respeito devido a Paulino havia de se estender a todos os seus. Fossem filhos, netos genros ou noras. Fazia parte da tradição e do poder, era intrínseco à condição. Humanamente legítimo.
Visto assim, é patente a busca pela evidenciação da relação inabalável entre as classes. Contudo resguardam-se honrarias evidentes aos poderosos, na moralidade, na tradição e até mesmo na sensualidade.
E assim cresce o menino de engenho, corrompido pelas negras e pobres, admirando o tio Juca e suas donzelas nuas, das revistas, admirando seu avô, senhor e homem de bem.
Vai Carlinhos para a escola se curar das contaminações da senzala, e ampliar em seu cerne os valores de vida da casa-grande e, quem sabe, findando a vida acadêmica, se tornar um senhor de engenho, senhor de muitos peões e de muitas mulatas. Um legado incontestável.
Escrito por Redator às 13h32
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