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O Código Inútil
Por Kleber Mateus
Ao ler, ultimamente, na parte em que os jornais dedicam ao cinema, pude notar o alvoroço que se monta ao redor da versão para as telas do livro “O Código Da Vinci”. Tanto se dá devido ao fato desta adaptação derivar dum livro que foi o grande sucesso de vendas no ano passado, e é justamente esse sucesso que me assusta.
Gostaria de esclarecer, antes de mais nada, que não vejo fenômeno negativo em qualquer publicação de alcance popular ou escrito para a maioria. Muito pelo contrário, dou grande crédito a escritores que fogem dos ditames acadêmicos, desde que o produto que gerem seja de qualidade, o que não é o caso do livro em questão.
A pergunta é “por que livro de Dan Brown é tão proeminente?”.
Pois bem, muitos poderiam até atribuir o sucesso do livro ao fato de ele trazer à tona um tema, no mínimo, interessante (na verdade fantástico) que é a Igreja. Talvez também a fama venha devido ao tom investigativo ou à revelação (nem sempre precisa, mas isso não importa) de certas curiosidades históricas. Naturalmente, essas características são aplaudidíssimas pelos “cults”, que notam, por isso, a “inteligência” e “perspicácia” do Dan Brown. Mas se esta é a fonte do sucesso, por que não causa tanto comentário, entre os jovens, “O Nome da Rosa”? Será por que é um livro dos anos oitenta? Podemos então trazer à tona um livro mais recente, com características semelhantes: “Aqueles Cães Malditos de Arquelau”, do brasileiro Isaias Pessotti. Mas esse também não é muito falado.
Na verdade, meus caros, nenhum desses dois livros pode fazer tanto sucesso quanto o fez o “Código” (ainda que especulem sobre a igreja, dêem belas demonstrações de história e historiografia, ou contenham personagem absurdamente inteligentes e argutos nas investigações) pelo breve motivo de possuírem coisas que o Código não possui (beleza estética, expressão filosófica e tendência erudita).
Mesmo que seja uma das primeiras desculpas que possam vir à tona, não podemos aceitar a afirmação de que a linguagem dos livros de Eco e Pessotti é inacessível porque, ainda que possuam grandes quantidades de linhas em latim e palavras pouco usuais, ambos os escritores se fazem entender porque são artistas e dominam bem suas artes e, por isso, se expressam com primazia e clareza, cabendo ao leitor o mínimo de sensibilidade (ou breves consultas ao dicionário) para poder ler as entrelinhas e o enredo como um todo.
O Código não tem nenhum momento de qualidade estética. Com suas frases bastante americanas e mui simplórias, parece mesmo um roteirinho hollyoodiano, e dum filme bem chinfrim, do tipo “Esqueceram de Mim” ou do gênero. Nenhuma frase de efeito também. Nada útil... nenhuma mensagem. Chulíssimo.
Talvez sejam mesmas essas as fontes de sucesso do livro. Uma erudição fingida, basicamente pseudo-intelectual; uma linguagem simples beirando ao ridículo; e a falta de qualquer mensagem ou qualidade estética, somados ao tema mais “inteligente” dos últimos tempos – falar mal da Santa Igreja Católica.
Deve fazer tanto sucesso também porque dá a seus leitores a sensação de inteligência instantânea (conhecer um pouco da igreja, um pouco de seitas ou um pouco sobre obras do Louvre é meio místico). Afinal, ninguém quer se cansar buscando ser mais instruído lendo os clássicos. Para isso basta fingir, disfarçar, parecer inteligente com alguns lugares comuns e comentários “legais” sobre um livro qualquer. Assim como para parecer artista hoje basta jogar tinta numa tela ou escrever poesias com frases desconexas ou narrativas engraçadas com um pé na auto-ajuda ou no misticismo ralo. Pura coisa pós-modernista... degenerada.
Ah, mas por me ser oportuno, ainda que não haja assistido a película, gostaria de acalmar os cinéfilos que temem pela deturpação da obra original, pois, como já disse, o livro é um verdadeiro roteiro de cinema, escrito como tal e, portanto, só uma total tempestade de idéias do diretor da versão pode acarretar em alterações profundas. Na verdade, seria até bom que acontecesse, pois se o filme for no mínimo parecido com o livro, será deplorável.
Escrito por Redator às 16h34
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